Fichamentos de textos debatidos no GREGEF 2018-2020

XV Reunião do GREGEF, 02/06/20

Mesa-Redonda 
Texto 14. ROSA, Marcelo Victor da et al. Fazendo gênero, fazendo enunciados: discursos sobre a homofobia na escola. Revista Periódicus. Salvador, v. 1, p. 455-467, 2019.


O que é HOMOFOBIA? - Por Prof. Dr. Marcelo Rosa (UFSM)

Atitude preconceituosa / discriminação / falta de educação / falta de empatia / com pessoas que possuem uma posição sexual diferente da heteronormativa.

Hostilidade irracional institucionalizada (do meu ponto de vista derivadas de interpretações religiosas) direcionada às pessoas que não são heterossexuais. Preconceito baseado em medo, vergonha, curiosidades encubadas. O pensamento de que só se existe uma possibilidade certa de sexualidade.

Discriminação direcionada as pessoas homossexuais, seja de forma explicita ou velada.

Rejeição à homossexualidade e/ou ao homossexual.

Ódio aos gays.

É o ódio, aversão, raiva, pelos indivíduos homossexuais.

É o repúdio e o ódio por homens e mulheres que não se identificam com a heterossexualidade.

É o preconceito com alguém que não apresenta comportamentos naturalizados como o padrão em relação ao sexo biológico que lhe foi conferido.

Parte de um sistema de um violência social e historicamente construído, no qual há a intenção de manter a dita "naturalidade" na ordem 'sexo-gênero-sexualidade'. Nesse sistema a homofobia aparece como recurso da imposição heteronormativa afim de vigiar os comportamentos "não-heterossexuais" e, em caso de transgressão, puni-los.

Preconceito direcionado a pessoas que apresentam identidade de gênero ou orientação sexual diferente da hegemônica.
  
PRÁTICAS SOCIAIS

QUESTÕES INTRODUTÓRIAS

O que seria a ordem sexo-gênero-sexualidade?

O que é a naturalização do sexo biológico?

Qual a diferença entre preconceito e discriminação?

O que pensam sobre as curiosidades encubadas?



As instituições. Destaque a Instituição Religiosa.

Foucault e o Poder Pastorado. 

Foucault (2004) entende que a principal contribuição do cristianismo para a história da sexualidade foi a interiorização de saber sobre si, tomada da consciência de suas fraquezas, de seu corpo e de sua sexualidade na busca da salvação.

[...] que fazia com que a carne cristã jamais fosse concebida como o mal absoluto do qual era preciso desembaraçar-se, mas sim como a perpétua fonte, dentro da subjetividade, dentro dos indivíduos, de uma tentação que corria o risco de levar o indivíduo a ultrapassar as limitações impostas pela moral corrente, ou seja: o casamento, a monogamia, a sexualidade para a reprodução e a limitação e a desqualificação do prazer (FOUCAULT, 2004, p.71).

Ideia do medo: Fobia

Historicamente, esse sufixo é ligado a fatores como medo, doença, emoção e/ou algum tipo de síndrome, possibilitando, dessa forma, que o conceito de homofobia seja marcado por questões de cunho biológico e médico, afastando-se, assim, de uma leitura histórica, social e cultural ao qual privilegiaremos aqui. Rosa et al (2019, p. 456).

Velada: Segundo Kleber Prado Filho et al. (2014), “[...] além de nos mostrar que relação de poder implica resistência, e que se torna tanto mais difícil resistir quanto mais sutil é o exercício de poder ao qual se está sujeito” (p. 126).

A transgressão foi citada, porém unilateral (punição).

Nosso tecido social é formado tanto por espaços constituídos por relações mais disciplinares, formalistas, normalizadoras e de controle – aparelhos de produção, de governo, de justiça, prisões, manicômios, escolas, hospitais – como por espaços de fuga e resistência, como movimentos sociais, algumas ONGs, mas também festas, eventos.

            Então tudo são violências e dor?
            Não, pois partindo do referencial foucaultiano, nas relações de poder a resistência se faz presente, desta forma, a vitimização na homofobia não faz parte do entendimento sobre a nossa concepção do que venha a ser homofobia. Não queremos dizer com isso, que os agredidos não tenham sofrido violências e dor, queremos apenas reforçar que, sendo o poder uma condição circulante, os sujeitos que sofreram e sofrem ações homofóbicas, devem a partir de si, pelas formas de se cuidarem, criarem e exercerem diferentes mecanismos de transgressões.
A questão mais importante talvez não seja a repressão, mas sim a forma de poder exercido.                   
[...] o discurso sobre o sexo, já há três séculos, tem-se multiplicado em vez de rarefeito; e que, se trouxe consigo interditos e proibições, ele garantiu mais fundamentalmente a solidificação e a implantação de todo um despropósito sexual. Não obstante, tudo isso parece ter desempenhado, essencialmente, um papel de proibição. De tanto falar nele e descobri-lo reduzido, classificado e especificado, justamente lá, onde o inseriram procurar-se-ia, no fundo, mascarar o sexo (FOUCAULT, 1988, p. 61).
Não se deve procurar encontrar um sentido/explicação unilateral, afinal o poder é sempre circulante e presente nas práticas sociais. O ponto principal de análise não está centrado na repressão sexual e ou leis de proibições, mas sim nas condições de exercício de poder.

“[...] A história sempre nos ensinou que o discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, é o elemento pelo qual e com o qual se luta, é o próprio poder que procuramos deter” (OSÓRIO, 2010, p. 126).

Exemplos: “Moderno Movimento homossexual”; HIV AIDS Câncer gay e o Programa Brasil Sem Homofobia.

SUJEITO

Para a maioria (6 respostas): Direcionada as pessoas que possuem uma posição sexual diferente da heteronormativa, que não são heterossexuais. Para homens e mulheres que não se identificam com a heterossexualidade. Para alguém que não apresenta comportamentos naturalizados como o padrão em relação ao sexo biológico que lhe foi conferido. Nesse sistema a homofobia aparece como recurso da imposição heteronormativa afim de vigiar os comportamentos "não-heterossexuais". Direcionado a pessoas que apresentam identidade de gênero ou orientação sexual diferente da hegemônica.

RESPOSTAS
ARTIGO DE ROSA ET AL (2019)
Pessoas
Genérico demais - Homens (mais quais homens?)
Que não são heterossexuais/ não se identificam com a heterossexualidade. Direcionado a pessoas que apresentam orientação sexual diferente da hegemônica.
Os bissexuais, pansexuais, assexuados também não se identificam e não são hegemônicos.
Para homens e mulheres
Mulheres lesbofobia - LGBTIfobia
Para alguém que não apresenta comportamentos naturalizados como o padrão em relação ao sexo biológico que lhe foi conferido. Direcionado a pessoas que apresentam identidade de gênero diferente da hegemônica.

As pessoas trans e as travestis também não apresentam o padrão naturalizado.
Transfobia também remete a pessoas que apresentam identidade de gênero diferente da hegemônica.
Diferença entre heterossexualidade compulsória e heteronormatividade?

Enquanto na heterossexualidade compulsória todos os sujeitos devem ser heterossexuais para serem considerados normais, na heteronormatividade todos os sujeitos devem organizar suas vidas conforme o modelo heterossexual, tenham eles práticas sexuais heterossexuais ou não. Com isso entendemos que a heterossexualidade não é apenas uma orientação sexual, mas um modelo político que organiza a vida das pessoas. (p. 394)

Para quatro pessoas: Direcionada aos homossexuais/gays:

Homofobia não é direcionada apenas aos homossexuais, pois heterossexuais e bissexuais também podem ser capturados por ela, uma vez que ela está intimamente ligada à existência de uma heteronormatividade, ou seja, há um padrão instituído do que é ser homem/heterossexual no qual os próprios heterossexuais podem não se enquadrar e os homossexuais, por sua vez, podem ser admitidos. Rosa et al (2019, p. 456).

Para uma pessoa: Direcionada a homossexualidade

            Gosto da ideia de pensarmos para além do homossexual. Pensar na homossexualidade ajuda a entender porque por anos nós fomos impedidos de doar sangue, adotar crianças e termos uma união estável. Somente em 2020 fomos autorizados pelo STF a doar sangue. Em 2015 o STF permite adoção e em 2011 o STF autoriza a união estável homossexual.
            Anteriormente um gay monogâmico não poderia doar sangue, pois a homossexualidade é pervertida e promíscua.
            O homossexualismo era tido como uma doença, então um homossexual (doente) poderia contaminar um/a filho/a adotivo/a.
            Dois homens não configuram a família tradicional.
            Mesmo eu não querendo casar, adotar filho e doar sangue entendo que a luta não é individual ela é coletiva/política.

            Para finalizar, trago os principais resultados do artigo por mim proposto para essa mesa, escritos nos dois primeiros parágrafos das considerações finais. O saber (discurso científico acerca da homofobia no processo de escolarização). O poder (jogos de verdade, embates, disputas para a construção e veiculação desse saber). O sujeito é esquadrinhado, marcado pela identidade, multifacetado, disputado ...

Após as análises do campo discursivo Seminário Internacional Fazendo Gênero, destacamos o embate de posições epistemológicas opostas ao uso e ao não uso dos enunciados opção sexual/orientação sexual, tolerância, homofobia e bullying. Para alguns pesquisadores(as) aqui analisados, esses enunciados estão mergulhados e enraizados no discurso neoliberal e servem para falsear uma aparente conquista ou apoio aos homossexuais e a luta contra a homofobia.

            Quais as condições de emergência dos discursos científicos da problemática da homofobia na escola e na sociedade brasileira nas últimas décadas?

Outro dado relevante foi que, no SIFG, a homofobia passou a se configurar como uma problemática de investigação científica a partir de 2008, com a apresentação de um trabalho completo sobre homofobia no contexto escolar. Acreditamos que uma relevante contribuição para tal emergência foi o lançamento do Programa Brasil sem Homofobia, que ocorreu em maio de 2004. A partir desse ano, as ações se iniciaram, como por exemplo, o oferecimento de curso de capacitação aos (às) professores(as), chamado Gênero e Diversidade na Escola, decorrente dessas ações surgiram pesquisas e com isso a veiculação de seus resultados foi ganhando em proporção e qualidade, o que acreditamos que tenha levado aproximadamente 4 anos.

REFERÊNCIAS

COLLING, Ana Maria; TEDESCHI, Losandro Antônio. Dicionário crítico de gênero. 2.ed. Dourados: Ed. Universidade Federal da Grande Dourados, 2019.

FOUCAULT, Michel. Sexualidade e Poder. In Ética, Sexualidade, Política: Coleção Ditos & Escritos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: A vontade de saber. 19ª edição. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.

OSÓRIO, Antônio Carlos do Nascimento. As instituições: discursos, significados e significantes, buscando subsídios teóricos e metodológicos.... In: OSÓRIO, Antônio Carlos do Nascimento (Org.). Diálogos em Foucault. Campo Grande - MS: Editora Oeste, v. 1, p. 95-134, 2010.

PRADO FILHO, Kleber; GERALDINI, Janaina Rodrigues; CARDOSO FILHO, Carlos Antônio. “Trajetórias analíticas em Vigiar e Punir”. Estudos Contemporâneos da Subjetividade, v. 4, n. 1, p. 123-132, 2014.

PRADO FILHO, Kleber; TETI, Marcela Montalvão. A cartografia como método para as ciências humanas e sociais. Barbarói (UNISC. Online). Santa Cruz do Sul, v. 1, n. 38, p. 45-59, jan./jun., 2013.


ROSA, Marcelo Victor da; OSÓRIO, Antônio Carlos do Nascimento; PRADO FILHO, Kleber; PASSAMANI, Guilherme Rodrigues. Fazendo gênero, fazendo enunciados: discursos sobre a homofobia na escola. Revista Periódicus. Salvador, v. 1, p. 455-467, 2019.

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XIV Reunião do GREGEF, 12/05/20
Mesa-Redonda

Fichamento do texto 13 
Notas de leitura do texto “O sujeito do feminismo e o Pós-estruturalismo” de autoria de Silvana Aparecida Mariano

por Prof. Dr. André Luiz dos Santos Silva



Por que o texto “O sujeito do feminismo e o Pós-estruturalismo” é interessante para pensarmos o campo da Educação Física?




a) Porque a categoria corpo, hegemônica no campo da Educação Física, constitui-se como um dos pontos centrais de discussão deste artigo. [Ao dizer que a categoria corpo é hegemônica, refiro-me à sua centralidade em diversos componente curriculares – Biomecânica, Fisiologia, Treinamento, Didática, História etc. Mesmo quando a categoria corpo não é discutida, seu caráter “dado” já indica uma determinada concepção]




b) Coloca em questão os sentidos da militância feminista diante das concepções pósestruturalistas acerca da categoria mulher. [Como estudioso do campo de gênero me reconheço como feminista ao: propor práticas inclusivas e problematizadoras de gênero e sexualidade nas aulas de Educação Física; ao decidir investigar as mulheres no esporte e as representações de gênero na mídia, por exemplo].




Neste sentido, guiado por essas compreensões, propus a leitura do texto em questão que, cabe ressaltar, apresenta certa complexidade ao articular autoras como Judith Butler, Joan Scott, Tereza de Lauretis e Linda Nicholson. Além disso, há ainda um trânsito conceitual muito intenso, o que não abre muito espaço para explicações mais detidas. Minha ideia, portanto, é tomar o eixo central do argumento da autora e pontuar com mais calma os conceitos que o sustentam. Ou seja, me proponho a discutir as bases que permitiram problematizar a categoria corpo e rasurar o entendimento de “mulher”.




Assumo a premissa que neste grupo há diferentes sujeitos com diferentes percursos e aproximações aos estudos de gênero, portanto, retomar as questões centrais do texto importa para nos permitir fazer perguntas a partir delas.




O ponto de partida aqui são as duas primeiras ondas do feminismo, cujos movimentos reivindicavam direitos para as mulheres. Temos portanto o par binário Homem – Mulher no eixo central dessas manifestações. Ou seja, na base das reivindicações é uma compreensão do que seja uma mulher, enquanto uma categoria universalizante.




Essa compreensão que produz os sexos é proveniente de diversos discursos: Religioso, Político, Científico, Econômico, Jurídico, etc. Mesmo guardando especificidades, esses discursos contribuíram (vem contribuindo), para a sedimentação da categoria mulher e para o entendimento, sobretudo a partir do século XIX, da diferença completa entre homens e mulheres como nos indica Thomas Laqueur (Inventando o sexo).




Segundo a autora, entretanto, a fixidez e a pretensão universalizante da categoria mulher gera alguns problemas:




1) A categoria Mulher não evidencia as diferenças entre as mulheres, inviabilizando outros marcadores sociais: raça, classe, geração etc.

2) Constitui-se como uma categoria identitária, portanto normativa, ou seja, exclui um conjunto de mulheres que não reúnem as características prescritas e reguladas pelo gênero.
3) Fixa pela biologia as mulheres num determinado lugar que não desafia a “natureza”, que essencializa e naturaliza.



No processo produção do conceito de gênero, entretanto, a autora aponta três vertentes que permitiram diferentes compreensões.




1) A ideia de determinismo biológico – no qual a biologia do corpo determinaria os modos de ser e portar. Eugenia e Biotipologia fundam-se teoricamente nas premissas dos determinismos biológicos.

2) Fundacionalismo biológico – sustenta a ideia de que a sociedade e a cultura produzem as norma e os sentidos de gênero a partir da materialidade manifesta no corpo. Aqui, apesar de se compreender que gênero se produz na história e na cultura, há a compreensão de que o corpo e a biologia funcionam como base sobre a qual os sentidos são forjados.
3) Construcionismo social. (Segue abaixo)



Mediante isso, autoras pós estruturalistas se empenhar em desconstruir esse par binário homem-mulher e apoiadas em Jacques Derrida e em Michel Foucault teremos uma das formulações clássicas de Judith Butler (Problemas de gênero): O corpo não é um elemento pré discursivo. Isso significa que a materialidade do corpo só é percebida na medida em que a linguagem a produz perceptível. Linguagem aqui não deve ser entendida como palavra ou narrativa, mas como um sistema de lutas por significação.




Portanto, se a mulher é puro conto, como nos diz Verena Stolke (La mujer es puro cuento), quem é o sujeito do feminismo no pós-estruturalismo? Ou ainda, O que é a categoria corpo nos estudos de gênero na Educação Física? 


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Fichamento do texto 14 (LOURO, 2001)
LOURO, G. L. Teoria queer: uma política pós-identitária para a Educação. Estudos Feministas. Florianópolis, ano 2, p. 541-553. 2001.

por Prof. Dr. Vagner Matias do Prado (UFU)


Introdução
“(...) as minorias nunca poderiam se traduzir como uma inferioridade numérica mas sim como maiorias silenciosas que, ao se politizar, convertem o gueto em território e o estigma em orgulho – gay, étnico, de gênero” (LA GANDHI ARGENTINA 1998 apud LOURO, p. 541).

Subversão X Políticas Reacionárias.

“O grande desafio não é apenas assumir que as posições de gênero e sexuais se multiplicaram e, então, que é impossível lidar com elas apoiadas em esquemas binários” (p. 542).

Construindo uma política de identidade Homossexualidade como invenção do século XIX.

Práticas Homoeróticas → Sodomia → Homossexualidade.
Ciência e Sistema Jurídico → impõem a verdade sobre os sujeitos e seus sexos (FOUCAULT).

“A homossexualidade, discursivamente produzida, transforma-se em questão social relevante. A disputa centra-se fundamentalmente em seu significado moral. Enquanto alguns assinalam o caráter desviante, a anormalidade ou a inferioridade do homossexual, outros proclamam sua normalidade e naturalidade – mas todos parecem estar de acordo de que se trata de um ‘tipo’ humano distintivo. (p.542)

1970 → Surgimento de aparatos culturais nos EUA e Inglaterra → culturas gay. 1975 → Movimento de Libertação Sexual (Brasil).

“A homossexualidade deixa de ser vista (pelo menos por alguns setores) como uma condição uniforme e universal e passa ser compreendida como atravessada por dimensões de classe, etnicidade, raça, nacionalidade etc. A ação política empreendida por militantes e apoiadores torna-se mais visível e assume um caráter libertador. Suas críticas voltam-se contra a heterossexualização da sociedade. A agenda da luta também se pluraliza: para alguns o alvo é a integração social – a integração numa sociedade múltipla, talvez andrógina e polimorfa; para outros (especialmente para as feministas lésbicas) o caminho é a separação – a construção de uma comunidade e de uma cultura próprias". (p. 543)

Início de uma política de identidade → Reconhecimento entre pares → crítica aos estereótipos → coming out (“sair do armário”) como peça fundamental. Proliferação de modelos de identificação na mídas, ates, ciência etc. Nas universidades, pesquisadorxs “colocam em discussão sua concepção [da homossexualidade] como um fenômeno fixo, trans-histórico e universal e voltam suas análises para as condições históricas e sociais do seu surgimento na sociedade ocidental.

No Brasil (de forma mais visível a partir de 1980), a temática também passa a se constituir como questão acadêmica, na medida em que, em algumas universidades e grupos de pesquisa, vem a ser discutida, especialmente com apoio nas teorizações de Michel Foucault. (p. 543).

Discursos “positivos” sobre as homossexualidades → efeito normalizador e disciplinarizador → identidade gay → política assimilacionista. Crítica de grupos latinos, negros, jovens e lésbicas → movimento pautado em valores convencionais. Para “bissexuais, sadomasoquistas e trans-sexuais essa política de identidade era excludente e mantinha sua condição marginalizada” (p. 544).

1980 → surgimento da Aids. “Apresentada, inicialmente, como o ‘câncer gay’, a doença teve o efeito imediato de renovar a homofobia latente da sociedade, intensificando a discriminação já demonstrada por certos setores sociais” (p. 545).

“(...) alguns grupos homossexuais permanecem lutando por reconhecimento e por legitimação, buscando sua inclusão, em termos igualitários, ao conjunto da sociedade; outros estão preocupados em desafiar as fronteiras tradicionais de gênero e sexuais, pondo em xeque as dicotomias masculino/feminino, homem/mulher, heterossexual/homossexual; e ainda outros não se contentam em atravessar as divisões mas decidem viver a ambigüidade da própria fronteira. A nova dinâmica dos movimentos sexuais e de gênero provoca mudanças nas teorias e, ao mesmo tempo, é alimentada por elas. (p. 545-546).

Crítica às categorias que produzem desigualdades. Marcadores sociais (gênero, sexualidade, cor/etnia, nacionalidade, regionalidade, religião, deficiência, classe sociais etc.).

Uma teoria e uma política pós-identitária - meados de 1990: Queer → estranho, excêntrico. Também um xingamento utilizado para se referir a homossexuais nos EUA (insulto). A enunciação reiterativa do xingamento “adquire força, conferindo um lugar discriminado e abjeto àqueles a quem é dirigido. (BUTLER 1999 apud LOURO, 2001, p. 546).

Reapropriação do Queer pela “teoria”→ (re)significação por grupos homossexuais para contestar a norma. Operação tática que mina a força constitutiva do insulto. A partir disso, “queer significa colocar-se contra a normalização” (p. 546).

O “alvo” da crítica queer é a a heteronormatividade, a heterossexualidade compulsória e a política assimilacionista dos movimentos identitários. “Queer representa claramente a diferença que não quer ser assimilada ou tolerada e, portanto, sua forma de ação é muito mais transgressiva e perturbadora” (p. 546). (ver: Queer Nation).

Convergências entre teóricxs queer: Pós-estruturalismo francês, desconstrução, partem do social como um texto a ser interpretado e contestam os conhecimentos em voga.

Teoria queer: crítica as noções clássicas de sujeito, conhecimento, verdade, identidade e identificação.

Sobre o “indivíduo”: “[l]onge de ser estável e coeso, esse é um sujeito dividido, que vive, constantemente, a inútil busca da completude” (p. 547). Contribuições de Freud, Lacan, Althusser, Foucault e Butler.

Xs teóricxs queer buscam em Foucault a noção de “sexo” como discurso produtivo e da “sexualidade” como um dispositivo histórico. Foucault “[e]mpenha-se em descrever esses discursos e seus efeitos, analisando não apenas como, através deles, se produziram e se multiplicaram as classificações sobre as ‘espécies’ ou ‘tipos’ de sexualidade, mas também como se ampliaram os modos de controlá-la.” (p. 547).

Michel Foucault: Repressão X Proliferação da(S) sexualidade(S). Jacques Derrida: oposições binárias → lógica do pensamento ocidental (nomeação, classificação, hierarquia e subordinação). É preciso desconstruir os binarismos! “Desconstruir um discurso implicaria em minar, escavar, perturbar e subverter os termos que afirma e sobre os quais o próprio discurso se afirma. Desconstruir não significa destruir, como lembra Barbara Johnson, mas “está muito mais perto do significado original da palavra análise, que, etimologicamente, significa desfazer””. (p. 548).

Outra importante teórica para os estudos queer é Judith Butler (Política do Peformativo): “Butler afirma que as sociedades constroem normas que regulam e materializam o sexo dos sujeitos e que essas “normas regulatórias” precisam ser constantemente repetidas e reiteradas para que tal materialização se concretize. Contudo, ela acentua que “os corpos não se conformam, nunca, completamente, às normas pelas quais sua materialização é imposta”, daí que essas normas precisam ser constantemente citadas, reconhecidas em sua autoridade, para que possam exercer seus efeitos. As normas regulatórias do sexo têm, portanto, um caráter performativo, isto é, têm um poder continuado e repetido de produzir aquilo que nomeiam e, sendo assim, elas repetem e reiteram, constantemente, as normas dos gêneros na ótica heterossexual.” (p. 548).

Gêneros inteligíveis: lógica de coerência entre Sexo → Gênero → Desejo (BUTLER, 2003) Regimes normativos → Performatividade → Abjeção → Resistência. Mas, afinal, para a teoria queer “falar” sobre as homossexualidades não seria uma armadilha discursiva? Esses discursos escapariam da heterossexualidade enquanto norma? (LOURO, 2001). 

Para Louro, em uma ótica desconstrutiva “se passaria a questionar os processos pelos quais uma forma de sexualidade (a heterossexualidade) acabou por se tornar a norma, ou, mais do que isso, passou a ser concebida como ‘natural'” (p. 549).

Qual é, então, o foco das críticas queer?: “O alvo dessa política e dessa teoria não seriam propriamente as vidas ou os destinos de homens e mulheres homossexuais, mas sim a crítica à oposição heterossexual/homossexual, compreendida como a categoria central que organiza as práticas sociais, o conhecimento e as relações entre os sujeitos. Trata-se, portanto, de uma mudança no foco e nas estratégias de análise; trata-se de uma outra perspectiva epistemológica que está voltada, como diz Seidman, para a cultura, para as “estruturas lingüísticas ou discursivas” e para seus “contextos institucionais” (p. 549).

Uma pedagogia e um currículo queer - Educação como espaço de normalização e ajustamento → o que pode nele o queer? Por não ser uma teoria propositiva, como podemos operar com o queer para (re)pensar os espaços educativos? Qual o espaço para a transgressão nas escolas?
O queer: “(...) nos obriga a considerar o impensável, o que é proibido pensar, em vez de simplesmente considerar o pensável, o que é permitido pensar. (...) O queer se torna, assim, uma atitude epistemológica que não se restringe à identidade e ao conhecimento sexuais, mas que se estende para o conhecimento e a identidade de modo geral. Pensar queer significa questionar, problematizar, contestar, todas as formas bemcomportadas de conhecimento e de identidade. A epistemologia queer é, neste sentido, perversa, subversiva, impertinente, irreverente, profana, desrespeitosa. (SILVA 2000 apud LOURO, 2001, p. 550).

Queer não assimila, não tolera, não nega! “Ao colocar em discussão as formas como o ‘outro’ é constituído, levariam a questionar as estreitas relações do eu com o outro. A diferença deixaria de estar lá fora, do outro lado, alheia ao sujeito, e seria compreendida como indispensável para a existência do próprio sujeito (p. 550).

É preciso desconstruir as redes normalizadoras que instituem e ossificam as identidades. Visibilizar as disputas que ocorrem no plano cultural para que possamos nos pensar como sujeitos. Desconfiar das verdades e analisar seus efeitos nos corpos. Tornar evidente a heteronormatividade. “A “reviravolta epistemológica” provocada pela teoria queer transborda, pois, o terreno da sexualidade. Ela provoca e perturba as formas convencionais de pensar e de conhecer.” (p. 551).

Sugestões para leitura:
BUTLER, Judith. Problemas do Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
CÓRDOBA, David; SÁEZ, Javier; VIDARTE, Paco. (Org.). Teoría Queer: políticas bolleras, maricas, trans, mestizas. 2ª ed. Barcelona: EGALES, 2005.
FOUCAULT, Michel. Historia da sexualidade: a vontade de saber. 20ª reimp. Rio de Janeiro: Graal, 2010.
HALBERSTAM. Judith Jack. Masculinidad Femenina. Barcelona/Madrid: Egales, 2008. 
HALPERIN, David. San Foucault: para una hagiografia gay. Buenos Aires: Ediciones Literales, 2004.
JAGOSE, Annamarie. Queer Theory. Melbourne: Melbourne University, 1996. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 2ª. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
______ (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000.
SPARGO, Tamsin. Foucault e a Teoria Queer. Rio de Janeiro: Pazulin; Juiz de Fora: Editora UFJF, 2006.
WARNER, Michael. Fear of a Queer Planet: Queer Politics and Social Theory. Londres: University of Minnesota, 1993. WEEKS, Jeffrey. Corpo e sexualidade. In: LOURO, G. L. (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. 2ª. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2001, p. 35-82.


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XIII Reunião do GREGEF, 21/03/20
Fichamento do texto 12 (FORTH, 2013)

FORTH, C. E. Masculinidades e virilidades no mundo anglófono. In.: CORBIN, A.; COURTINE, J. J.; VIGARELLO, G. (Orgs.). História da Virilidade 3. A virilidade em crise? Séculos XX e XXI. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 154-186.

p. 154-155. Os estudos críticos da masculinidade (ou Estudos dos Homens, nas C. Humanas), se desenvolvem na esteira do feminismo (1970), numa perspectiva multidisciplinar, que interpreta as masculinidades por conceitos e métodos diversos, nas humanidades. Para o autor, “o estudo das masculinidades (...) se aproxima (...) do estatuto de uma disciplina particular”. O texto traz o quadro dos estudos das C. Humanas (História*), refuta a “crise da masculinidade” e adota a noção de “continuidade” do comportamento masculino através de épocas/culturas.
p. 155-163. Pensar as masculinidades: Neste tópico são apresentados diferentes estudos, organizados em 2 perspectivas teóricas: “materialista” e “pós-estruturalista”, que coexistem em relação de tensão e complementaridade. A primeira se baseia prioritariamente nas C. Sociais e fundamentos estáveis sobre as normas masculinas; enquanto a segunda se baseia, sobretudo, nas C. Humanas, com foco na Filosofia e no pensamento de Derrida/Foucault, refletindo sobre o desvelamento de ambiguidades/instabilidades dessas mesmas normas.
As primeiras críticas sobre a dominação masculina emergiram na 2ª onda feminista, dos estudos materialistas que, a partir do feminismo marxista, conceberam o patriarcado como a expressão da coerção masculina pelas estruturas econômicas, políticas e sociais. Neste contexto, os homens e a masculinidade eram expressões da opressão sobre as mulheres. Outras feministas interpretavam esta abordagem como redutora e “monolítica”, pois a teoria do patriarcado “congelaria a fluidez e a instabilidade (...) das masculinidades”: se os homens e a masculinidade se reduzem à dominação masculina, isso impede a interpretação da complexidade e das nuances dos comportamentos masculinos. Estudos relacionados ao “movimento de libertação dos homens” sublinham que o patriarcado é nocivo aos homens e mulheres, oferecendo ônus aos homens, que sofrem pressões para provarem força física, agressividade, virilidade e poder desde a juventude; além de apontarem (des)continuidades na noção de uma “masculinidade tradicional”, que sofre mudanças em culturas e épocas distintas.
O autor apresenta a teoria do sociólogo australiano Robert Connell (Raewyn*), elaborada na déc. 1980, utilizando o seu conceito de hegemonia – portanto, alinhado com Gramsci e uma perspectiva teórica “materialista”, ao assumir a noção de “masculinidade hegemônica”, construída a partir das relações de gênero travadas no patriarcado, legitimando a ideia de dominação masculina dos homens sobre as mulheres e demais minorias (ex. gays e negros). A ideia de “masculinidade hegemônica” ainda permanece presa à estrutura de relações entre homens e mulheres, não incorporando o que Forth denomina de um “sistema historicamente mutante”. A teoria de Connell concentra o foco nas relações entre os homens e neste contexto, categorizam outras masculinidades, que se afastam da norma: “subordinada” (associada aos homossexuais), “marginalizada” (associada à raça e classe social) e “cúmplice” (associada aos homens pró-feministas, que gozam os dividendos patriarcais). Muito utilizada nas C. Humanas, a ideia de “masculinidade hegemônica” contribuiu nas reflexões sobre uma análise crítica das masculinidades por oferecer uma “gama de maneiras concorrentes e hierarquicamente ordenadas de ser um homem” (p. 159). Mas sofreu críticas por apresentar uma forma monolítica e homogênea de masculinidade*, sem considerar suas contradições internas, reiterando a noção reduzida de patriarcado, contribuindo para, se for utilizada sem a devida reflexão, “obscurecer e confundir o que pode haver de fluido na masculinidade” (p. 160), aspecto que Connell e Messerschmidt debatem em artigo publicado em 2013**.
Estudos pós-estruturalistas questionam a ideia de “masculinidade hegemônica” a partir das teorias de Derrida (com a desconstrução do binarismo masculino-feminino); e Foucault (com reflexões sobre relações de poder); responsáveis pelo que se chamou “virada linguística” ao questionarem verdades científicas. Neste contexto, Butler aponta que o sexo também necessita ser interpretado como um objeto de construção cultural, sendo difícil distingui-lo do gênero; este associado a “atos performativos” (um “fazer”) que constituem identidades masculina/feminina. O pós-estruturalismo transformou as C. Humanas e Sociais e ampliou as possibilidades de interpretar as masculinidades para além de um espectro, reconhecendo a fluidez e a instabilidade das masculinidades, suas falhas e fissuras que caracterizam uma pluralidade intrínseca de toda masculinidade, considerada “internamente híbrida, e sempre construída por uma tensão e pelos conflitos” (p. 163).
p. 163-172. Fazer a História das Masculinidades: Historiadores usam várias perspectivas disciplinares. Situam-se no “materialismo”, adotando o conceito de masculinidade hegemônica e a relação com o patriarcado; e no “pós-estruturalismo”, enfatizando a polivalência/fluidez das masculinidades. O autor destaca que “esta diversidade reflete mais a riqueza do terreno do que constitui uma verdadeira fonte de inquietude” (p. 163).
O texto traz estudos sobre as masculinidades nos séc. XIX-XX. A perspectiva “materialista” surge na déc. 1970, com o movimento de “liberação dos homens”. N. Stearns investigou, a partir da História Social, mudanças nos ideais masculinos nos Estados Unidos/Europa pós Rev. Industrial, relacionando as mudanças à industrialização, urbanização, desenvolvimento da sociedade moderna e das atitudes desde o final do séc. XVIII, apresentando categorias de homens (ideais-tipo sociologicamente definidos), relevantes para estudos posteriores. A. Rotundo aponta que no início do séc. XIX, pela importância dada ao self-made-man, formas tradicionais de masculinidade estavam “eclipsadas”. M. Kimmel adota a “masculinidade hegemônica” por razões políticas e metodológicas. Argumenta que tal uso permite “aos pesquisadores atar firmemente os seus trabalhos à crítica feminista do patriarcado”* (p. 165). Sinaliza que o “patriarca distinto” e o “artesão heroico” dos séc. XVII-XIX declinam no final do séc. XX. Seu estudo é pioneiro para estudar as masculinidades norte-americanas.
A perspectiva “pós-estruturalista” tem na historiadora J. Scott seu estudo pioneiro sobre o gênero enquanto categoria de análise histórica. A partir da desconstrução do binarismo de gênero (Derrida) e das relações de poder (Foucault), a autora aponta o gênero como “um elemento constitutivo das relações sociais fundado em diferenças percebidas entre os sexos, (...) uma maneira (...) de significar as relações de poder” (p. 166). Scott amplia o alcance da crítica feminista para além da “opressão patriarcal” – o que não agradou algumas historiadoras feministas; abrindo caminhos para análises históricas mais fluidas das masculinidades.
Historiadores passam a estudar as masculinidades a partir de períodos distintos. Bederman indica que o termo masculinidade inexistiu antes de 1900 nos Estados Unidos, quando a concepção vitoriana da “virilidade” predominava. “Masculinidade” passa a circular na déc. 1930, associada à agressividade, força, sexualidade máscula, ideais associados ao homem norte-americano da classe operária, ainda hoje predominante*. Tosh aponta que o termo masculinidade (masculinity) não aparece antes da década de 1970 na Inglaterra, afirmando que o conceito de “virilidade” (manliness) durou mais tempo do que nos Estados Unidos (com significado próximo da “masculinidade” norte-americana), associando-se tanto à religiosidade e às boas maneiras, quanto à (hetero*)sexualidade, robustez física, preparação para o combate e esportes (críquete, caça, hipismo, remo, boxe e o duelo). É importante reconhecer a polissemia dos termos “manliness”/“masculinity” em diferentes períodos e culturas de língua inglesa. Em países como Alemanha, não há termos para diferenciar virilidade de masculinidade. Sohn afirma que na França, apesar do termo “masculinidade” já existir no séc. XVII, o termo “virilidade” era mais utilizado para significar características que iam da polidez e distinção, à potência sexual e agressividade. Destaca que no séc. XIX a virilidade agressiva se desfaz quando a sociedade passa a recusar a violência. *Pesquisas recentes na Inglaterra trazem tensões às já realizadas, apontando que no séc. XIX, homens ingleses já reivindicavam o direito de expressarem uma “emoção masculina” e o investimento no espaço doméstico*.
Sobre estudos “materialistas” e “pós-estruturalistas”, o texto destaca que se o termo “guarda-chuva” da “masculinidade hegemônica” é uma via cômoda para pensar as diferenças dentro das masculinidades; as generalizações a partir de “categorias periodizadas” não dão conta das continuidades das condutas masculinas. Por outro lado, essas categorias, apesar de “redutoras”, são necessárias por conferir inteligibilidade sobre seu conteúdo e permitirem buscar justiça (igualdade?)* via políticas de identidade.
Analisando estudos históricos sobre masculinidades desde 1990, o autor destaca complexidades, diversidades e divergências, exemplificando esta afirmação com pesquisas inglesas realizadas com diferentes objetos de estudo e abordagens. Feministas* expressam desconforto com o aumento de estudos das masculinidades no contexto do gênero, argumentando ser uma ameaça ao feminismo por subestimar o poder dos homens sobre as mulheres. Na perspectiva “materialista”, de fato, a invisibilidade* do patriarcado nos estudos sobre as masculinidades pode indicar um distanciamento de pesquisadores(as) das desigualdades existentes entre homens e mulheres*. Contudo, é necessário ampliar a visão binária das relações homens-mulheres, assumindo as descontinuidades nas identidades (o que não significa negar uma estrutura patriarcal – mas interpretá-la de forma flexível*), desconstruindo a oposição masculino-feminino, homem-mulher e produzindo outras formas de interpretar a estrutura de dominação presente num patriarcado “reapropriado”**, que se manifesta internamente em microuniversos sociais, p. ex., entre homens brancos/negros, heterossexuais/gays, cristãos/evangélicos, nórdicos/latinos. Neste aspecto, o autor reafirma que a história das masculinidades deveria tratar mais das relações de poder atravessadas por hierarquias de classe, raça, gênero e sexualidade.
p. 172-180. O ‘feminino’ no homem: O texto apresenta um consenso entre as abordagens “materialista” e “pós-estruturalista” no estudo das masculinidades: a construção da masculinidade supõe um combate e renúncia à feminilidade. Isso inclui mulheres, grupos considerados afeminados, e comportamentos/desejos interpretados como femininos. São apresentados estudos que problematizam o receio do feminino pela “masculinidade pura”, tais como: “tensões entre a racionalidade masculina e o corpo feminino”, “separação das esferas pública-masculina e privada-feminina”, “resistência de soldados alemães em deporem armas em 1918, com receio de se afastarem da dureza/virilidade guerreira”, “temores do regime fascista ao feminino” – perseguição aos homossexuais*; “homossexuais ocupando espaços sociais hierarquicamente inferiores das masculinidades”, “mudanças na representação de homossexualidade nos Estados Unidos - séc. XIX/XX - e sua associação à feminilidade”, “feminização do Oriente pelo Ocidente - Britânicos e indianos/colonizados”; “estratégias de resistência à noção de feminização, como a adoção da ginástica e do body-building”, entre outros temas.
p. 180-186. ‘Crises’ e continuidades: Neste tópico o autor refuta a suposta “crise da masculinidade”, defendendo a noção de “continuidades” masculinas para interpretar as mudanças nas masculinidades em diferentes recortes históricos/culturas. A partir de É. Badinter, se indica que angústias masculinas ocorrem desde o séc. XVII (1690), com reedições (1780/1850/1890/1930) em países da Europa e na América do Norte. As “crises” remontam à Antiguidade, quando gregos e romanos preocupavam-se com a associação entre o luxo e a ameaça à virilidade, ou seja, nunca houve uma “estabilidade” sobre as masculinidades. S. Robinson, crítica literária, destaca que a estratégia “performativa”, via linguagem, produz uma representação convincente do “traumatismo”/“mudança” nas masculinidades. Há uma “crise da masculinidade” ou uma “crise dos homens”? Quando se refere à saúde, o texto traz a menor expectativa de vida, o maior risco de suicídio e doenças aos quais homens estão submetidos, pela admissão ao risco, pela irresponsabilidade, o consumo de drogas e a resistência em admitir vulnerabilidade e buscar os serviços de saúde. O autor destaca: “não é a masculinidade em si que está em crise, mas os homens que se encontram em estado de crise, em parte porque eles adotam certas formas de masculinidade” (p. 182).
Historiadores(as) propõem percepções em relação aos processos cíclicos, de continuidade, oscilação de versões mais “duras ou “moles” da masculinidade. Isso requer reconhecer que esta continuidade não é linear, ao longo do tempo, mas influenciada por culturas distintas, em diferentes períodos. A tensão contemporânea entre masculinidades “duras” e “doces” atravessa o Ocidente, influenciado por novas mentalidades e a importação de modelos que promovem mudanças nas masculinidades modernas. Ex. Na Inglaterra do séc. XVIII, a virilidade era agressiva e coexistia com o ideal do gentlemen, mais distinto e polido, dos franceses; grupo tido como “afeminado” e “não britânico”. O mesmo ocorreu nos Estados Unidos, com o medo da europeização ameaçar a masculinidade do homem na América, fundada no militarismo e na economia agressiva.

Por fim, o autor sublinha que a luta pelos direitos das mulheres, homossexuais e negros evocou reflexões sobre as masculinidades norte-americanas, aproximando-as do feminismo: “(...) a resposta à questão ‘O que (...) a masculinidade tem a ver com o feminismo?’ deve ser: ‘Tudo’. Foi o pensamento feminista que inventou essa masculinidade que estudamos, desconstruímos e nos esforçamos para reconstruir agora, e esta masculinidade é tudo, menos invisível” (ROBINSON, 2002 apud FORTH, 2013).

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XII Reunião do GREGEF, 07/03/20
Fichamento do texto 11 (VIGARELLO, 2013)

VIGARELLO, G. Virilidades esportivas. In.: CORBIN, A.; COURTINE, J. J.; VIGARELLO, G. (Orgs.). História da Virilidade 3. A virilidade em crise? Séculos XX e XXI. Petrópolis: Vozes, 2013. p. 269-301.

p. 269-271. Na virada do séc. XIX–XX associa-se força, coragem, dominação e vigor ao esporte, tido como símbolo e via de construção da “virilidade” por Coubertin. No séc. XX, o ingresso das mulheres na esfera pública/esporte deslegitima a virilidade como exclusividade masculina.
p. 271-274. “A instalação espontânea de um corpo viril”: No início do séc. XX, o termo “virilidade” era associado à moral dos verdadeiros esportistas (homens), com músculos fortes, rígidos e definidos, com destaque para lutadores, saltadores olímpicos, ciclistas da primeira década do século.
p. 274-276. “A ideologização e suas dinâmicas morais”: O esporte moderno requer valores como o fair play, a lealdade, o coletivo, o valor formativo, o caráter, a bravura, a obstinação, elementos presentes no Olimpismo e alinhados com uma “moral viril”.
p. 276-280. “Por que regenerar?”: No início do séc. XX, a prática feminina é cercada de proibições, circunscrevendo-se à dança, ginástica e gincanas, apesar de participações em eventos públicos de ciclismo/corrida no final do século XIX. O COI inclui provas femininas nos II Jogos Olímpicos, 1900, mas Coubertin as reprovava*, reconhecendo os homens como verdadeiros heróis olímpicos, cuja excelência é “viril”, associada metaforicamente à guerra (ex. rugby e ferimentos esportivos).
p. 281-282. “Menos ‘supermasculino’ e mais ‘controle’”: Coubertin qualifica como “mórbidos” os desejos sexuais do esportista. O receio da degenerescência (álcool, pornografia, desejo) deve ser combatido e controlado pela prática disciplinada do esporte, que cria uma virilidade.
p. 282-284. “O universo totalitário e a virilidade superafirmada”: Entre as duas Guerras Mundiais, uma nova virilidade emergiu. Regimes totalitários das ditaduras europeias (1920-40) apresentam na figura do atleta um “novo homem”, que ancora sentidos de “saúde física da raça” (fascismo), e “melhora física dos trabalhadores” (socialismo). Ambos fundamentam o “militar” como sinônimo da cultura muscular e juventude. A mulher é interpretada como “esposa” e “mãe” (Berlim, 1936)*.
p. 284-287. “O esporte ‘democrático’ e o tema das diversidades”: Apesar dos regimes totalitários, entre 1920-30, o esporte diversificou os perfis físicos, devido à ampliação das modalidades. A ideia de “virilidade” permanece, mas distante dos estereótipos da virada do século, orientando-se para vertentes mais íntimas: coragem, obstinação e abnegação. Emerge uma “virilidade suavizada”.
p. 287-290. “A prática feminina e as evidências contestadas”: A fundação da “Federação Francesa de Esporte Feminino” em 1917 (A. Miliat) promove deslocamentos na noção de virilidade. Mulheres se inserem no atletismo nos Jogos Olímpicos de 1928, Amsterdã, ainda que o discurso médico reprovasse sua inserção em competições por prejuízos à maternidade; e permanecessem as comparações entre a graça de mulheres (ex. patinadora) e homens (ex. lutador). Suzanne Lenglen (1920) é pioneira ao treinar fundamentos para “jogar como os homens”, apresentando um tênis para todxs; e Gertrude Ederle bate o recorde masculino do Canal da Mancha (1926). A Enciclopédia dos Esportes de 1924 publica: “o esporte feminino se referia ‘ao sexo que não mais deseja ser frágil’”.
p. 290-291. “Da virilidade segura à virilidade ameaçada”: “A velha virilidade perdeu marcas passadas” com a inserção das mulheres em modalidades de reserva masculina (ex. halterofilismo). O esporte contemporâneo põe em curso o “princípio da igualdade”, sem desconstruir a alteridade livre de homens e mulheres esportistas; ainda que práticas que incorporam a agressão se mantenham como um “território de antigas virilidades, a encarnação de ‘resistências’ à renovação” (lutas*).
p. 291-295. “O regime de igualdade e seus efeitos”: 1980 traz mudanças nas representações sobre os esportes generificados como masculinos, a partir de performances de mulheres no atletismo, com Jackie Joyner-Kersee; ginástica, com Mary Lou Retton; tênis, com Steffie Graf; e águas abertas, com Florence Arthaud; que incorporaram marcas “viris”: tolerância à dor, força, velocidade, concentração, resistência, agressividade. “Expressões tais como ‘belo sexo’ ou ‘sexo frágil’” perdem sentido, enquanto valores masculinos e femininos se transformam: revistas masculinas trazem matérias sobre cuidados pessoais/beleza, assumidos por atletas (David Beckahm); enquanto revistas femininas publicam matérias sobre exercícios de força e ganho de massa muscular.
p. 295-297. “Virilidade perigosa?”: O termo “virilidade” assume um tom pejorativo com o desmonte da “masculinidade tradicional”, as “asperezas ‘se apagam’, os corpos ‘se suavizam’”. Destaque para novas modalidades que, com avanços tecnológicos, promovem a ludicidade, o deslize, a informação sensorial, não requerendo o combate e/ou a força para sua prática: surfe, asa-delta, windsurfe, skate. O “deslizamento, a escuta, o sensível reorientam as práticas esportivas, favorecem a estética, a agilidade, o aéreo, e opõem a leveza contemporânea ao peso do passado”.

p. 297-301. “O esporte, conservatório ‘viril’?”: O esporte espelha as mudanças na virilidade ao longo do séc. XX. Entretanto, mantém expressões tradicionais (rudeza/rigidez), que recompõem a clássica virilidade do final do séc. XIX. O número de mulheres atletas aumentou*, mas algumas áreas permanecem masculinas (treinamento, gestão, mídia). A mídia ainda usa eufemismos que associam a performance masculina ao combate/guerra, ainda que esses valores associados à virilidade tenham ficado no passado. Tais fatos são frequentes nos esportes de combate (judô, boxe e rugby), onde mulheres ainda sofrem preconceitos, como a “virilização” (masculinização*), já superada em outras modalidades. No cenário de mudanças na virilidade, esportes de combate ainda cultivam “velhas imagens da virilidade”, tornando o esporte um espaço onde qualidades associadas ao masculino ainda mantém privilégios contestados em outras esferas (política, trabalho, educação).


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II Seminário de Estudos de Gênero do GREGEF: Diálogos sobre Gênero, Corpo, Identidade e Sexualidade na Educação Física

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XI Reunião do GREGEF

Texto 8. PASCOE, C. J.; SOUZA, T. M. Notas sobre uma sociologia do bullying: homofobia de homens jovens como socialização de gênero. Teoria e Cultura, Juiz de Fora, v. 13, n. 1, p. 289-302, 2018.

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X Reunião do GREGEF, 20/08/19
Fichamento Texto 7 (CORSINO, AUAD, 2012).

Resistências e conflitos (Cap. 6)
p. 77. Resistências de gênero na EFe afetam meninos e meninas _ linguagens verbal e não-verbal.
p. 78-79. Formas de resistência (pró-atividade discente): meninas _ hábito de não usarem o uniforme, criticam aulas livres, o favorecimento dos meninos (futebol), o “silêncio” docente; meninos  _ excluem outros meninos que não atendem à heteronormatividade e/ou masculinidade hegemônica ou meninas com pouca habilidade, incluindo aquelas hábeis (relações de poder).
p. 79. Estudos _ predomínio de aulas “misturadas” _ garantir socialização entre meninos/as, mas discentes qualificam que a socialização é “negativa” (↑ violência, individualismo, desorganização, ↓ participação, heterogeneidade) _ sugestão de uma política educacional coeducativa.
p. 80. Problematizar ‡ que não são naturais: meninos hábeis, agressivos e menos polidos entre si versus meninas com ↓ habilidade, falantes e afetuosas _ violência de gênero entre meninos/as*, entre meninos ou entre meninas.
p. 81-82. Aulas mistas _ agressividade dos meninos com meninas e vice-versa: como meninos e meninas interiorizam (ou não) características associadas ao seu gênero? _ Conflitos decorrem de relações assimétricas que transformam a EFe num jogo de resistências/aceitações (ex. hab. motora).
p. 82-83. Sexo _ Irrelevante quando se tem habilidade motora, mas as representações sobre o que se espera de meninos/meninas sobre habilidade permanecem iguais _ meninas habilidosas e meninos menos habilidosos são discriminadxs quando erram jogando com meninos habilidosos (reforço de hierarquias de gênero). _ O erro é associado à feminilidade/homossexualidade.
p. 84. Docentes _ problematizar as construções sociais de gênero sobre construções corporais.
p. 85-86. “Jogos das resistências e aceitações” _ momento privilegiado para o docente problematizar as relações de gênero na EFe, a partir do debate sobre as diferenças que geram as “resistências” de meninos e meninas às fronteiras de gênero impostas socialmente.

Perguntas e respostas coeducativas (Cap. 7)
p. 87-88. Turmas separadas garantem homogeneidade, organização, socialização positiva e rendimento, mas silenciam os conflitos de gênero.  Critérios usados por docentes potencializam as hierarquias de gênero, sem problematização _ “aprendizado da separação” e “aprendizagem do silenciamento” _ falsa sensação de igualdade (necessidade de novos procedimentos didáticos que pressupõem a convivência entre meninos e meninas).
p. 89-90. Conteúdos tratados não se relacionam com as questões de gênero que permeiam a EFe _ forma de tratamento dos conteúdos (esporte) reforça hierarquias de gênero entre meninos/meninas, distanciando-se da Coeducação.
p. 90-91. EFe Coeducativa pressupõe pensar o gênero como categoria de análise para interpretar: dados tidos como biológicos (habilidades motoras*); processo de relações de poder que constitui corpos masculinos/femininos; noção de que as ‡ não devem ser utilizadas como argumento para separações, mas para promover a equidade de oportunidades (não transformar ‡ em desigualdades).
p. 91. Docentes _ Aprofundar conhecimentos sobre relações de gênero _ construir estratégias de problematização, garantindo uma reflexão crítica dos alunos/as e a promoção de ações que combatam desigualdades baseadas em hierarquias de gênero cristalizadas.
p. 92. Coeducação deve incorporar as contribuições dos estudos feministas, de gênero e das questões étnico-raciais, considerando o diálogo entre raça-gênero (pesquisa em andamento).

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IX Reunião do GREGEF/UFF - 09/07/19

Notas do texto 5: AUAD, Daniela; CORSINO, Luciano Nascimento. Feminismos, interseccionalidades e consubstancialidades na Educação Física escolar. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 26, p. 1, 2018. (por Leandro Brito)

- Processo crescente de valorização da perspectiva interseccional – como conceito caro às
teóricas e nobre prática para as ativistas (p.1)
- Desta forma, há de se focalizar, como um primeiro pilar da análise a ser empreendida, o debate sobre o conceito de “conhecimento situado” ou o que a autora denomina “perspectiva parcial” da epistemologia feminista, a partir da consideração tanto da interseccionalidade quanto da consubstancialidade (p.2)
- O termo interseccionalidade se tornou um conceito de uso corrente para designar a interdependência das relações de poder, de raça, de gênero e de classe (p.3)
- Em que pese a herança francesa, a abordagem da ‘interseccionalidade’ foi desenvolvida nos países anglo-saxônicos, a partir da herança do Black Feminism, desde o início dos anos de 1990, dentro de um quadro interdisciplinar, por Kimberlé Crenshaw e também por outras pesquisadoras inglesas, norte-americanas, canadenses e alemãs (p. 3)
- Com isso, de modo transdisciplinar, são percebidas as relações entre desigualdades sociais e as formulações identitárias, sem que se aposte em hierarquização das categorias e, ainda, percebendo-se que é a interação dessas categorias que atua na produção e manutenção das desigualdades (p. 3).
- Ao lado disso, um ponto maior de convergência entre ambas é a proposta de não hierarquização das formas de opressão (p. 4)
- Apesar da riqueza da abordagem descrita, o campo do esporte parece manter-se androcêntrico, como aponta Patrícia Lessa, ao afirmar que, culturalmente, o esporte tem se apresentado como uma prática onde a masculinidade se comprova, na qual se aprende a valorizar o homem e a desvalorizar a mulher (p. 6)

- É preciso considerar as variadas construções identitárias, assim como a necessária e urgente implementação das leis 10.639/03 e 11.645/08, de modo a seguir em busca de uma Educação Física coeducativa e antirracista que transgrida, que visibilize (p. 10).

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VIII do GREGEF - 18/06/2019
Texto 6. GOELLNER, S. Mulheres, memórias e histórias: reflexões sobre o fazer historiográfico. In.: GOELLNER, S.; JAEGER, A. A. (Orgs.). Garimpando memórias: Esporte, Educação Física, Lazer e Dança. 2. ed. Porto Alegre: UFRGS, 2004. p. 13-26.

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VII Reunião do GREGEF - Gênero e Mídia Esportiva
Texto 5. Produção de sentidos sobre a visibilidade de mulheres no jornalismo esportivo (reunião com apresentação de slides, sem fichamento)

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VI Reunião do GREGEF – 09/04/2019
Fichamento - Texto 4 (COSTA, SILVA, 2002).

p. 44. Sociedade patriarcal > determinismo biológico para justificar desigualdades entre homens/mulheres > 1970 (movimento feminista) > necessidade de se repensar o conceito de “igualdade” em relação ao de “diferença” na Educação, a partir da educação de meninos e meninas numa ótica coeducativa.
p. 44-45. Escola e Educação Física escolar (EFe) como reprodutoras de valores e normas sexistas, “adequadas” a cada sexo, separando-os e fortalecendo o binarismo: meninas educadas para a vida privada (casa) e meninos para a esfera pública (trabalho) > *impactos na socialização com práticas corporais.
p. 45. Aparecimento da escola “mista” com intuito de oferecer melhor educação para mulheres, mas a meta foi “educar as meninas adaptando-as ao modelo masculino” (Refletir sobre a EFe*). A escola mista não considerou a “diversidade” ao valorizar o modelo masculino e desvalorizar características e potencialidades das meninas, que sofrem discriminações.
p. 46. Necessidade de aceitar o “diferente”, aprender com o múltiplo, surpreender-se com o inusitado, ter curiosidade pelo desconhecido, transgredir e superar o estabelecido. > Currículo oculto (não-dito/linguagem nã-verbal) > exposição do corpo manifesta diferenças biológicas e culturais entre meninas e meninos, no contexto de valores e normas masculinos que predominam na EFe, limitando o espaço feminino (*EFe, por vezes, como  único espaço para o convívio com práticas corporais. **Atenção aos meninos vitimados por não corresponderem ao modelo padronizado de masculinidade).
p. 47. As denúncias da sobrevalorização do modelo masculino na educação mista têm apontado como solução as aulas coeducativas, que neutralizem práticas discriminatórias; enquanto outro grupo é favorável à separação dos sexos pelo assédio sexual, emocional e físico imposto às meninas; além do discurso da necessidade da homogeneidade para se buscar a performance de cada grupo (Ex. EFE*).
p. 48. Sugestões para romper com a discriminação de meninas: a) não falar/escrever no masculino ou neutro quando a referência for o feminino; b) valorizar as opiniões e enfatizar a participação das meninas; d) problematizar ações masculinas que as ridicularizam; e) valorizar características femininas nos meninos.
 p. 48. Coeducação > igualdade de atenção e oportunidades dadas aos meninos e meninas, de forma a promover a equidade, com vistas ao desenvolvimento integral (afetivo, social, motor, intelectual, psicológico), valorizando as contribuições e diferenças de meninos e meninas (escola mista ‡ coeducativa > a igualdade não se conquista simplesmente introduzindo as meninas em atividades com meninos).
p. 48-49. Correntes > a) Coeducação pela “igualdade” ou b) Coeducação pela “diferença”. A) Scraton (o acesso de meninos e meninas às mesmas atividades garante a coeducação) > Crítica* > O princípio da igualdade desconsidera o discurso disciplinar androcêntrico e a estrutura patriarcal da escola; assim como as diferenças intrínsecas aos grupos, como diferentes níveis de habilidade motora e interesses pela prática corporal, construídos nos processos de socialização de meninos e meninas. B) Talbot (atenção às diferenças e à reprodução de práticas estereotipadas – homofóbicas, p. ex.) // Fontao (valorização das diferenças entre meninos e meninas para construção de um ambiente equitativo, comum, solidário e integrador). > Análise >  Argumentos que se solidarizam com a ideia de  “afirmar identidades diferenciais” que escapam da generalização “todos iguais”.
p. 50. Docente deve se aprofundar nos Estudos de Gênero para implementar práticas diferenciadas como a coeducação, permitindo o combate aos estereótipos que reforçam binarismos na EFe.
p. 51.
A igualdade de oportunidades na Educação Física [...] não deve ser pautada na comparação dos meninos com as meninas ou da necessidade de destreza na dança por parte dos meninos e do futebol por parte das meninas. O mais importante é valorizar a diferença e a contribuição individual para todos os meninos e meninas, sendo oferecida a atividade física como direito, com recursos iguais [...].


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V Reunião do GREGEF/UFF - Reunião 26/03/2019
Debate sobre o documentário The Mask You Live In - por Leandro Brito

Notas de leitura do Texto 3: BRITO, L. T.; LEITE, M. S. Sobre masculinidades na Educação Física escolar: questões teóricas, horizontes políticos. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 12, n.2, p. 481-500, mai./ago. 2017.

- Inclusão como sinônimo de deficiencia x Inclusão e diferença

- Abordagem incipiente sobre sexualidade e masculinidade nas pesquisas em Educação Física escolar

- Invisibilidade dos estudos da masculinidade nas pesquisas sobre gênero: “A abordagem das questões da masculinidade nos estudos de gênero encontra, muitas vezes, resistência em parcela da militância feminista, que critica o que é interpretado como invasão do seu espaço de luta política” (p. 486).

- Realização de levantamento bibliográfico do periodo entre 2006 – 2015 sobre a categoría masculinidade nas pesquisas em Educação Física (Motriz, Movimento e RBEFE): 9 artigos sobre a temática masculinidade e 5 artigos fundamentavam-se na teoría da masculinidade hegemónica.

- “[…] a noção de masculinidade hegemônica se refere à dinámica cultural por meio da qual parte dos homens exige e mantém uma posição de liderança nas sociedades ocidentais, através da legitimação do patriarcado, submissão das mulheres e, em especial, da exclusão de masculinidades consideradas subalternas” (p.489).

- Hierarquia das masculinidades: masculinidade hegemónica, masculinidade cúmplice, masculinidade marginalizada, masculinidade subordinada

- “[…] muitos sujeitos masculinos obtêm vantagens advindas de tal modelo, beneficiandose dos dividendos patriarcais, em especial da subordinação das mulheres, mesmo que não se
enquadrem plenamente nas práticas instituídas pela masculinidade hegemônica. Estas seriam as masculinidades cúmplices (CONNELL, 2003)” (p.490).

- “ […] a masculinidade marginalizada diz respeito a exclusões relacionadas a questões de
classe social e raça/etnia. Connell (2000) pondera que as masculinidades marginalizadas podem partilhar de características associadas à hegemônica, mas que essa autorização – advinda da própria masculinidade hegemônica – nunca é plena, nem tampouco beneficia todo o grupo de homens classificados neste modelo. O exemplo mais clássico diz respeito aos atletas negros estadunidenses, que podem eventualmente se aproximar do modelo hegemônico de masculinidade, pelo status, fama e dinheiro conquistados pela carreira, porém não o fazem sem restrições, nem implicando qualquer alteração para a situação dos homens negros em geral (CONNELL, 2003)” (p.490).

- “Os homens homossexuais, em situação de franca subalternização pelos homens
heterossexuais, representariam a masculinidade subordinada. As relações de dominação e de
subordinação específicas desse modelo se dariam pela estigmatização cultural homofóbica da
identidade gay, através de uma série de práticas materiais e simbólicas, tais como exclusões
culturais e políticas, discriminação religiosa e econômica, violências de todos os tipos etc” (p. 490).

- Leitura da masculinidade pelos estudos pós-estruturalistas: noção de desconstrução, performatividade de gênero e teoría queer


- Masculinidade normalizadora e Masculinidade queer.

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I Seminário Interno do GREGEF - 04/122018
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III Reunião do GREGEF – 30/10/18 - Palestra "Implicações da diversidade de gênero e sexual na Educação Física escolar: por uma prática que desnaturalize a violência" (Prof. Ms. Leonardo Peçanha)

Texto 2. ANJOS, L. A. dos; GOELLNER, S. V. Esporte e transgeneridade: corpos, gêneros e sexualidades plurais. In.: DORNELLES, P. G.; WENETZ, I.; SWENGBER, M. S. V. Educação Física e Sexualidade: desafios educacionais 1. Ijuí: Unijuí, 2017.

·    Esporte como prática social sexuada, praticada por homens e mulheres; generificada e generificadora, produzindo feminilidades e masculinidades.
·   Objs. A) Ressaltar desequilíbrios/tensões provocadas pela presença de pessoas trans no esporte, por seus corpos serem observados como não inteligíveis, ao fugirem dos padrões normativos; B) problematizar a visibilidade de atletas trans nos JOs como ferramenta para tematizar a diversidade na EFe, refutando a “ideologia de gênero”.
p. 52-58 – O TRANS COMO O OUTRO: O INDECIFRÁVEL DENTRO DO BINARISMO DAS REPRESENTAÇÕES.
·         Iniciativa do COI em autorizar atletas trans nos JOs, a partir de novas diretrizes: retirada da obrigatoriedade de cirurgia de transgenitaliação > deslocamento no entendimento do que significa ser homem ou mulher > rompimento com a matriz heteronormativa: sexo-gênero-desejo.
·         Trans como sinônimo de transgênero > conceito “guarda-chuva” que define um grupo diversificado de pessoas que não se identificam com o papeis esperados com base no sexo com que nasceram.
·         Pessoas trans tencionam a ordem binária e a noção de normalidade, desafiando normas regulatórias (p. ex. no esporte), posicionando-se no espaço da “ambiguidade” ou do “entre lugares”. Sujeitos trans não se reconhecem na matriz sexo-gênero-desejo > sua identidade de gênero não corresponde ao seu sexo biológico, gerando intervenções em seus corpos: vestimentas, exercícios, cosmético, hormônios cirurgias.
·         Homem trans > nasceu com aparelho reprodutor de uma mulher, mas se identifica como homem.
·         Mulher trans > nasceu com aparelho reprodutor de um homem, mas se identifica como mulher.
·         Paradoxo: Luta pela despatologização da transexualidade como doença vs desejo do SUS garantir o tratamento hormonal e a cirurgia de transgenitalização após diagnóstico de “desordem de identidade de gênero”.
Caráter binário do esporte separa homens e mulheres, excluindo sujeitos trans, cujos corpos e desempenhos desestabilizam a matriz heterossexual expressa no alinhamento sexo-gênero-desejo.
p. 58-63 – O ESPORTE, SUAS PRÁTICAS REGULATÓRIAS E OS CORPOS QUE DELAS ESCAPAM
·         Esporte como instituição normalizadora dos corpos, sexualidade e masculinidades/feminilidades > Ex. “Política de Verificação de Gênero” – “teste de feminilidade” visual (1966, Campeonato Europeu de Atletismo e 1968, JOs México > abolido somente nos JOs 2000, Sidney).
·         “Verificação de Gênero” > reforça binarismo e o papel dos hormônios (testosterona) na diferenciação sexual > mulheres trans, com vantagens hormonais sobre outras mulheres cisgênero são excluídas do esporte (apenas mulheres trans devem comprovar níveis de testosterona – mulheres cis com alta performance sob suspeita).
·         Avanço do COI > deslocamento no entendimento de que o que define o sujeito como homem ou mulher passou da anatomia dos corpos para taxas hormonais (disputa justa) > maior aceitação no esporte de pessoas que rompem com o modelo heterossexual, além de aumentar o acesso de sujeitos LGBT nas vivências esportivas.
·         Ex. Mulheres trans no esporte: 1970 (Renée Richards/tênis) e 2011 (Fallon Fox/MMA) > passados 40 anos, os argumentos sobre a participação de mulheres trans no esporte ainda são regidos pelo sistema sexo-gênero.
·         Atletas trans transformam representações de feminilidade e masculinidade, descolando sexo do gênero, desencadeando ações para sua inclusão no esporte > função política e pedagógica).

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II Reunião do GREGEF, 09/10/18
Esquema - Texto 1 (GOELLNER, 2013)

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I Reunião do GREGEF, 28/08/2018
Apresentação do Grupo de Pesquisa
Mesa-redonda "Sexualidade e Empoderamento pelo esporte: masculinidades e feminilidades"
Prof. Dr. Leandro Brito (CPII) e Profa. Mda Jane Moura (Ong Empodera)

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Novo curso de extensão: "Estudos das Masculinidades na Educação Física e no Esporte"

O Grupo de Pesquisa em Relações de Gênero em Educação Física (GREGEF-CNPq) tem o prazer de divulgar e convidar a todas/os/es para o próximo ...